A Maria levantou-se cedo.
Foi trabalhar, resolveu problemas que não estavam previstos, ficou mais algum tempo porque havia coisas que tinham de ficar feitas e, quando saiu, o dia ainda estava longe de terminar. Havia uma casa para gerir, pessoas de quem cuidar, contas, compras, compromissos e todas aquelas pequenas tarefas que nunca aparecem numa folha de objetivos, mas sem as quais a vida simplesmente não funciona.
O João também se levantou cedo.
Tinha chegado tarde de um segundo emprego, agora começava mais um dia na sua ocupação principal. Pelo meio talvez tenha ido buscar os filhos, fazer o jantar, tratar de um familiar ou ajudar um vizinho. Talvez tenha passado o dia inteiro a tentar fazer um pouco mais com um salário que chega sempre um pouco menos longe.
A Maria e o João não existem, são produto da minha imaginação, ou talvez existam aos milhares, nos Açores, em Portugal, na Europa e no Mundo.
Têm nomes diferentes, profissões diferentes e vidas diferentes. Há quem trabalhe por turnos, quem acumule empregos, quem cuide dos filhos e dos pais, quem estude depois de um dia de trabalho, quem fique mais uma hora para ajudar a empresa a cumprir um objetivo, quem dedique parte do pouco tempo que lhe sobra a uma associação, a um familiar ou simplesmente a alguém que precisa.
Todos os dias existem pessoas que cumprem e excedem os marcos e as metas das suas vidas.
Fazem-no para que a família tenha melhores condições. Para que a empresa onde trabalham funcione melhor. Para pagar uma casa. Para criar os filhos. Para cuidar dos pais. Para ajudar alguém. Para chegar ao fim do mês.
E muitas vezes fazem mais do que aquilo que lhes era exigido.
Quando fazemos aquilo que devemos fazer, aquilo que assumimos fazer ou aquilo para que fomos escolhidos, não é preciso que alguém se levante numa Assembleia, com ar solene, e assuma o papel de mestre-de-cerimónias para nos entregar uma medalha. Nem sequer uma de sabão.
Vem isto a propósito de um voto de congratulação aprovado na Assembleia Legislativa Regional.
O voto, apresentado pelo PSD, congratula o cumprimento da totalidade dos 39 marcos e metas do PRR atribuídos aos Açores e os resultados alcançados para as famílias e empresas da Região. É essa a formulação que consta da proposta.
Tenho a certeza que muita Maria e muito João estão por detrás desse cumprimento.
São os técnicos que ficaram até mais tarde. Os funcionários públicos que tiveram prazos para cumprir. Empresas que executaram projetos. Autarquias, instituições, trabalhadores e dirigentes que tiveram de resolver problemas, ultrapassar atrasos e fazer acontecer investimentos dentro de um calendário particularmente exigente.
Esses merecem o reconhecimento.
O que tenho dificuldade em compreender é um Parlamento congratular politicamente o cumprimento daquilo que constituía precisamente uma obrigação de governação.
Se uma empresa recebe financiamento para executar um projeto e o executa, fez aquilo a que se comprometeu.
Se um Governo assume perante os açorianos que vai executar determinados investimentos e os executa, governou.
E governar deve ser reconhecido pelos cidadãos, nas avaliações que fazem dos resultados, e não necessariamente através de um voto de congratulação do próprio sistema político.
Neste ponto, a minha crítica inclui também o meu partido que votou favoravelmente este voto, embora tenha simultaneamente levantado questões sobre as reprogramações e sobre investimentos que ficaram por realizar ou transitaram para outras fontes de financiamento. Eu não teria votado da mesma forma.
Acredito que devemos distinguir entre reconhecer um bom resultado e congratular-nos por termos cumprido uma obrigação.
E talvez devêssemos guardar os votos de congratulação para aquilo que verdadeiramente ultrapassa o esperado.
Para quem fez mais do que tinha obrigação de fazer.
Para quem se distinguiu.
Para quem deu à comunidade alguma coisa que não lhe podia ser simplesmente exigida.
Amanhã a Maria e o João voltam a levantar-se cedo.
Vão novamente trabalhar, cuidar, resolver, ajudar, pagar contas e tentar que o dia seguinte seja um pouco melhor do que o anterior.
Voltarão a cumprir marcos e metas. Quem sabe até excedê-los.
Mas não vão receber sequer uma medalha de sabão.